quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Querer


Eu só queria que fosse tudo assim. Eu queria não ter vontade de fazer o que não posso, e fazer tudo o que tenho vontade. Eu queria ter vontade de fazer tudo o que posso e esquecer que da vontade do que nunca poderei. Eu queria fazer sem pensar e pensar sem doer. Eu queria berrar mil vezes vai se fuder, só pelo prazer de berrar, só pela necessidade de extravasar. Eu queria que ninguém olhasse neste momento como se também nunca tivesse tido vontade.
Eu queria só isso. Eu queria que os dias fossem longos apenas quando eu quisesse que fossem, e dormir durante um mês quando os dias se tornassem longos demais para serem suportáveis. Eu queria que as coisas acontecessem do meu jeito, e na hora que eu quisesse, e que chovesse só quando eu pedisse. Eu queria gritar no pôr do sol que é tudo uma merda, e que as pessoas se esquecessem de ser hipócritas, e berrassem comigo que existe aqui muita luta perdida. Eu queria que os sonhos não fossem esquecidos nem trocados pela obrigação.
Eu gostaria apenas que acontecessem dessa forma. Não, não. Eu gostaria que as coisas acontecessem, aliás. Eu queria que não tivesse preconceito no mundo, que as pessoas boas ficassem, que pudéssemos ser amigos. Eu queria menos mistérios. Queria que mulher não tivesse TPM, que homem fosse fiel, que filho não tivesse inseguranças, que pais não pressionassem situações. Eu queria amar num nível de elevado a 100 sem nenhuma explicação, e que aceitassem amar sem explicação. Eu queria que se deixasse de amar no minuto seguinte ninguém julgasse minha ciclotimia.
Eu queria falar sempre eu quero, e que tudo isso fosse atendido do modo como pedisse. E se fosse tudo assim? Eu queria que fosse tudo diferente. 

Eu, Lu

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Disseram-me que a vida curta.

Mas como é que pode?

Se todos os dias eu morro

de tanto rir e tanto chorar?

Se todos os dias eu sofro


de dor e por tanto amar?

Como é que é

e como é que pode,

Morrer assim, só por estar a viver?

E como é que eu vivo

se estou a morrer

a todos os instantes,

de tanto sonhar?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Recipiente

Se os seus olhos houvessem me dito
com tal força, deste ódio,
antes eu teria partido
dos seus braços
que me envolviam de carinho.
 
Porém,
só agora descubro
que sentimento vazio
deste ser humano mesquinho,
que a existência me tornou.

E com aquela enorme sensação
de quando transgredia os dizeres,
fiquei a perceber os momentos
deixados no não-fazer dos ditames
que a vida me mostrou sem volta.

Talvez se eu tivesse escutado...
o desejo escondido
nas palavras que vem do silêncio,
eu teria compreendido,
na estrada do amor humano,
que a vida não segue padrão.


Eu, Inês

quinta-feira, 17 de março de 2011

Miscelânea


Se tudo na vida fosse o que esperávamos que fosse, eu não seria eu. Não, mas eu não sou o que penso e nem penso o que sinto. Eu não sou neste instante a pessoa que fui no instante em que passou. Tudo me muda e eu fico surda. Tudo me transforma e eu não vejo nenhuma possibilidade de volta.
Fluxo, fluir, fui. Já não posso mais ser quem gostaria que fosse porque nunca fui nem mesmo quem eu pensava que era. Não, esta ciência acaba com tudo o que eu sinto na mesma medida em que acabam os sentimentos, com o que penso. Nessa miscelânea da vida.
Sim, e eu me transformo no desterro do existir, na metamorfose do elixir que não sabe ainda qual o efeito do feitiço a que veio transmitir. Que não busca o objetivo vão dos que vivem neste encanto. Que não pretende senão isso.
Neste retrocesso da morte, ficamos a pensar em todo o amor que não brotou, a dor do que nunca aconteceu, e na falência dos órgãos, na doce ilusão do que nunca irá acontecer. 

Eu, Raquel 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Eterna despedida

A partida é sempre dura, mesmo quando por vontade própria. Partir é ir embora, é seguir viagem numa travessia onde todas as escolhas são incertas e o fim é desconhecido, onde as rotas se alternam e confundem nosso coração, e onde o objetivo é a próxima conquista, sempre tão intangível... A partida é dura, mesmo o adeus não fazendo parte dela, pois algo está sendo deixado para trás.
E é tão engraçado o ser humano. Alguns são objetivos, outros sonhadores. Alguns amam, outros se enganam, mas amam mesmo assim, e outros ainda, guardam rancor. Uns são engenheiros, outros escritores, e há também médicos e pintores. E todos são artistas. São artistas porque diz que entende, e faz que entende, e por vezes até acreditamos que entendemos! Mas a gente não entende absolutamente nada...
Nós não entendemos a grandeza da vida e o tamanho dos nossos corações. Somos, querendo nós ou não, produto de uma época e de um espaço, e neles estaremos inseridos e de tal modo ligados, que o diferente acaba nos parecendo sempre alheio, e que se assim não fosse, talvez facilitasse o percurso.
Claro, com exceções que só a vida é capaz de produzir, e que não vem ao caso agora, porque Gandhis só existem uma vez... E como ele não somos, continuamos sem entender da dor e do amor. E que da vida, a gente só leva o que nasce lá no fundo da alma, a partir de cada despedida, e de cada novo passo, e também da superação de mais outro obstáculo, e da consciência de que somos diferentes, e que assim sendo, podemos ser mais, e não menos, juntos.
E quem é que explica? Ninguém. Por melhor que sejamos e mais que tentemos, ninguém nunca explicará o coração humano. Porque palavras jamais poderão traduzir a grandeza e a pluralidade e a incongruência de tudo o que somos capazes de sentir.
E alguém ainda virá nos dizer “assim é a vida”. E nós saberemos que é verdade. Mas não interessa, a despedida continuará sendo dura. Porque estaremos nos despedindo sempre, de nós mesmos.

Eu, L