quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Eterna despedida

A partida é sempre dura, mesmo quando por vontade própria. Partir é ir embora, é seguir viagem numa travessia onde todas as escolhas são incertas e o fim é desconhecido, onde as rotas se alternam e confundem nosso coração, e onde o objetivo é a próxima conquista, sempre tão intangível... A partida é dura, mesmo o adeus não fazendo parte dela, pois algo está sendo deixado para trás.
E é tão engraçado o ser humano. Alguns são objetivos, outros sonhadores. Alguns amam, outros se enganam, mas amam mesmo assim, e outros ainda, guardam rancor. Uns são engenheiros, outros escritores, e há também médicos e pintores. E todos são artistas. São artistas porque diz que entende, e faz que entende, e por vezes até acreditamos que entendemos! Mas a gente não entende absolutamente nada...
Nós não entendemos a grandeza da vida e o tamanho dos nossos corações. Somos, querendo nós ou não, produto de uma época e de um espaço, e neles estaremos inseridos e de tal modo ligados, que o diferente acaba nos parecendo sempre alheio, e que se assim não fosse, talvez facilitasse o percurso.
Claro, com exceções que só a vida é capaz de produzir, e que não vem ao caso agora, porque Gandhis só existem uma vez... E como ele não somos, continuamos sem entender da dor e do amor. E que da vida, a gente só leva o que nasce lá no fundo da alma, a partir de cada despedida, e de cada novo passo, e também da superação de mais outro obstáculo, e da consciência de que somos diferentes, e que assim sendo, podemos ser mais, e não menos, juntos.
E quem é que explica? Ninguém. Por melhor que sejamos e mais que tentemos, ninguém nunca explicará o coração humano. Porque palavras jamais poderão traduzir a grandeza e a pluralidade e a incongruência de tudo o que somos capazes de sentir.
E alguém ainda virá nos dizer “assim é a vida”. E nós saberemos que é verdade. Mas não interessa, a despedida continuará sendo dura. Porque estaremos nos despedindo sempre, de nós mesmos.

Eu, L

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Brindes ao léu

Um brinde à vida.
Ao que ela é,
e ao que ela poderia ser.


Ao que não foi
e ao que nos enganou,
Um brinde pelo prazer de se perder.

Ao que virá
Um brinde pela grandeza de perdoar.

Ao choro que não chorou
Ao abraço esquecido
e ao sorriso que não compartilhou,
Um tributo pelo recomeçar. 

Uma homenagem
Ao homem e ao amigo
E à comunhão da dor
que nos restou.
A um só alguém
que nunca sabe
suficientemente bem
sobre a sua insuficiência
de amar.

Eu, Luluzinha

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O esquecimento prévio da dor que não sentiu

  O que? Então era só isso? Foi tudo o que conseguiu?
 

  Depois disso, nunca mais a viu.
 

  Há cinco anos Marcelo se corroía tentando entender porque perdeu o amor, porque não acompanhou o que sentia, porque não insistiu, porque se esquivou. Há cinco anos ele se perguntava por que não chorou. O que sentia agora era alheio até a ele mesmo.
 

  Passeava pela vida de mulher em mulher, de vazio em vazio, e não conseguia medir a ausência do tudo que não havia sentido. Em seu peito pesava agora a armadura do tempo que nos coloca parâmetros e medos, e nos enche de uma sensatez engessada por moralismos e valores que na maioria das vezes nem entendemos, no máximo aceitamos.
 

  A vida é engraçada. Naquela noite agradável de primavera, enquanto bebia entre amigos, e tentava mais uma vez se esquecer do mundano subúrbio do seu coração, soube do casamento e da gravidez interrompida. E da dor que sentia agora, só ele soube.
 

  Cinco anos de uma vida paralisada entre o ontem que não viveu e o amanhã que não chegava foi, na vida dela, tudo o que ele se recusou a lhe dar. Estranha aquela sensação. Perder o que se tem, sem saber que se tinha, sem saber que perdia, e sem saber que queria tanto. A perda significava muito para alguém que nunca perdeu nada em função do medo de perder.
 

  Marcelo bebia naquela confraria com os amigos há cinco anos, conversando sobre as mesmas besteiras há cinco anos; das conquistas que não fizeram, quem era o melhor; do sentido que a vida perdeu, quem ganhou mais; do amor que recusaram, quem mais se arrependeu. Cinco anos na mesma estúpida voracidade de viver. Enquanto ela tinha amado novamente - ou não, até porque não interessa mais... Agora ela já não ama ninguém, está morta e só deixou na terra um idiota que não foi capaz de confessar que a amava.
 

  É engraçado os caminhos que a vida nos apresenta, e as dúvidas e as angústias, e as escolhas que (não) fazemos. E a humanidade ainda tinha que inventar mais esta..., da necessidade de amar.

Eu, Luiza 

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De onde vem e para onde vamos

Da expectativa nasceu a dor,
a espera eterna pelo que não veio,
o sonho se sobrepondo à ação,
e o medo de uma saudade;


Da dor surgiu a experiência,
a passagem de uma fase da vida,
a lembrança do que se foi sem razão,
a conquista de uma nova vontade;


Da experiência, a decepção,
o momento daquilo que não voltou
o desejo de rasgar o espírito
o momento em que se movem montanhas;


Da decepção veio a verdade,
a proximidade com o fim,
o reencontro com uma sensação
e a certeza do recomeço.
Eu, L

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Descaminhando

Caminho lentamente,
a planta dos pés apalpando o chão disforme e poroso. Tateio cuidadosamente corpos duros, algumas pedras pequeninas e pontiagudas que incomodam a pele, como se estivessem rasgando o próprio coração.
Direciono o corpo vagamente na escuridão, vou adiante. Como se os olhos estivem cerrados; fecho-os afim de me sentir mais segura, pois a aflição de não conseguir ver quando se tenta desesperadamente enxergar é grande por demais. E vem a vontade de chorar.
Tremenda vontade de colocar tudo para fora, não em palavras, nem em berros, em lágrimas. Lágrimas que sairiam tão naturalmente como pensarmos no destino que não controlamos. Lágrimas doces de frustração, sim. De decepção também, e de dor. Lágrimas doces de vida.


Todos os sentidos se afloram.
E o fervor angustiante de se querer viver, e viver e viver.
O que acontece no
instante
em que o agora passa, se torna imensamente pequenino. Porque o agora vem fazendo mais e mais, parte apenas do passado. De um passado longínquo e seguro, que não existe mais....
Incompreendido por mim e para o sempre, porque a certeza do absoluto humano não existe. Porque o ser certo é o des-humano.
Eu, Raquel

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando não se espera

Ele não esperava. E foi como um golpe, um tombo do cimeiro de todos os sentimentos.
Mas que bom não esperarmos a dor enquanto perdura o amor. E se depois machuca, não machuca mais do que a decisão de não o vivermos. Foi isso o que não se aprendeu... E sonhos conjuntos deitaram ao chão como se nunca mais pudessem ser (re)construídos, como se o futuro não fosse o amanhã imprevisível e a cura de todo coração partido.
Mas de nada adiantaria mesmo falar, ao sofredor, sobre o amadurecimento, sobre o homem se descobrindo humano, e sobre o humano se descobrindo mortal; porque de nada adianta a desculpa para quem só procurou por ser amado, e viu a dor se tornar seu companheiro.
Sentimento podre foi o que ficou, e a sensação de uma perda incomensurável sobre alguém que se tornou insubstituível. Uma perda terrena e mundana, uma perda fétida sobre a angústia que parece rasgar o que já está vazio.
Mas só o que queria que lembrasse, é para onde caminha o sentimento perdido. Ele não vai para o vácuo, ele não se perde na alma. Ele fica guardado.
Ele está apenas a espreita do próximo passo, do reencontro, de você ou de um outro alguém, quando poderá fazer com que perceba que na vida só perde, quem ganha.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Rapidinhas

Era uma árvore
amarela.
Frondosa amarela.
Perdida no meio
da alma,
no esquecido espaço
do nada.

Florescendo vigorosas
as raízes
do amanhã.
Meu ypê,
entre o vazio
e o incompreendido
caminho da solidão.

Era amarelo e
luzia a espetaular
e incandescente
luz da imensidão.

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Meus olhos não
vêem o que vejo. Meus
olhos só vêem o que
querem. E o quê
penso ver, que meus
olhos jamair viram, está
guardado na doce
ilusão da memória
do que nunca vivi.
Por que crio e
sorrio
para aquilo
que me
empolga, e vejo
sem que meus olhos nunca tenham visto.


Eu, Luluzinha

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Violeta é a vida, e o nome da minha Borboleta

Desde pequenos somos colocados diante de situações com as quais não sabemos lidar. Com as quais não queremos lidar! Porque somos crianças, porque somos pequenos, ou porque não sabemos ainda lutar. Na verdade, porque não temos idade suficiente para fazermos escolhas, e assim, outros escolhem por nós.

Sim, a vida é cheia de adversidades. Cheia! E ainda nos colocam diante de cada situação... Pense bem, em quando crescemos. Quantas vezes você já não se imaginou fazendo escolhas diferentes daquelas que seus pais fizeram por você?! Quantas vezes já não os achou as pessoas mais estúpidas por o terem forçado a fazer algo de que você não faria?! Das coisas mais banais, até aquelas que mudam toda nossa história... Você usaria as roupas que usava quando era pequeno e não era você quem as escolhia? Você cortaria o seu cabelo como eles o cortavam? Você estudaria no colégio em que estudou? Você dará aos seus filhos a educação que eles lhe deram?
Não, não é hora de olhar para trás e acusá-los por sermos quem somos, pelo erro que talvez tenhamos cometido, por não ter sido aquela a nossa escolha, pela mudança forçada de rota. Mas é hora de percebermos que não somos mais pequenos...

Está na hora de nos darmos conta de que hoje somos nós quem decidimos por nós. Que somos nós que erramos e somos nós que muitas vezes insistimos em errar. Somos nós que não olhamos para o lado imaginando que estão todos conseguindo nos acompanhar; e somos nós também que tornamos mais difícil algo tão difícil como encarar a realidade de sermos donos de nosso destino. Somos nós que dificultamos quando dificuldade não há!

Nós crescemos muitas vezes, ainda com a idéia daquele casulo que nos protegeu na infância. E envoltos neste casulo, pelo amor e pelo zelo que outros tiveram por nós, acabamos sem perceber que só iremos viver ao estar fora dele. Sejam os pais, sejam os amigos, sejam parentes distantes, sejam os nossos medos ou as nossas falhas, seja o que(m) for o nosso casulo, a vida só começa a partir do momento em que tomarmos conta dela sozinhos.

E as adversidades, sim, estas que existem de montão, elas existem simplesmente para nos ajudar a nos tornarmos capazes de conduzirmos o nosso caminho. Primeiro porque será só na adversidade que lembraremos o que somos e o que queremos realmente. Será na adversidade que nos distanciaremos do casulo para irmos em direção daquilo que queremos construir, além do casulo. Depois, porque só diante dela também é que poderemos perceber quantas adversidades criamos que não precisariam ter...

Apesar do seu casulo, e sempre se lembrando dele - porque é impossível de outra forma -, é preciso ter a coragem e a força suficientes para se criar o próximo, e depois o próximo, e mais o próximo, e até que se aprenda a voar. O vôo é solo, e na dúvida, sempre haverá a possibilidade de voltar... Sempre há a chance de se refazer um casulo e então reaprender a voar. Este casulo é feito de adversidades, mas também de amor, de atenção, de paciência, de sobriedade. Ele é feito do que você quiser, porque você cresceu e agora é você quem construirá o seu.

Eu, L

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Perdido no espaço do tempo que não volta

Você, que chegou assim,
sorrateiro e sem querer,
que me disse que amizade
era algo raro de se ter
e difícil de se manter.

Você, que sem esperar
amarrou meu coração;
Numa amizade tão pura
Quanto a manobra inocente de se dar as mãos.

Você que também já viveu da angústia
Que também só procurou o amor
E que igualmente só encontrou
O trabalho árduo e a busca eterna,
O imenso caos da viagem sozinho.

Você que recusou a conquista oca
Que não pediu para vencer o vazio
Que me mandou caminhar na sombra.
Você que quis ser pintor.

Sim, você.
Que fez o que quis.
Que mandou quando pôde.
Que não me pediu perdão, e
Onde eu encontrei um irmão.

Você que nas palavras me conquistou,
Que nas angústias me alertou
Que o medo me fez perder
A ilusão de nos construirmos do nada.

Você, meu querido amigo,
Por quem eu vou torcer para que um dia
Vá dizer eu fiz,
Vá dizer eu quis
E vá pintar a vida.

Porque só dentro é que encontramos
a essência tão limpa, tão límpida e tão linda,
tão pura daqueles poucos que não sabem de onde são.

Eu, que não sei onde estou

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Passagem

A noite seguia quente e abafada quando adentrou o 7º andar da Rua Morena Pereira. Estava para entrar uma daquelas tempestades de verão, passageiras como tudo na vida...
Encontrou-o sozinho. Com a calma e a serenidade características daqueles que sabem que um dia ela chegaria. Na verdade, aguardando-a.

Esperava-a já há algum tempo, ele disse. Achei que não viesse mais.
Você sabe que venho. Que cedo ou tarde, no fim sempre volto.
Eu sei...
Fica triste com isso?
De modo algum. Recebo-a com a mesma verdade e satisfação com que já recebi muitos outros em minha vida. Com o coração aberto para saber curti-la, aprender com você, e viver com você. Seja por um dia ou, se tiver que ser, por uma vida.
É bom ouvir isso. Sobretudo vindo de você. Não imaginava que iria ser tão bem recebida. Na verdade acho que eu pensava que não iria ser nem querida.
Se enganou. Não entendi de todo o “sobretudo”... De qualquer modo, seja como foi que vivi minha vida até agora, gostaria que soubesse que nunca a evitei. Em todas as vezes que você passou pela minha vida tive o prazer imenso de compartilhar com você momentos maravilhosos. Mas não a conheço por completo. Você passou por mim e confesso, não a via. Mas sei agora que há mais de um modo de encarar a vida, mais de uma maneira de viver, mais de uma verdade. Sei que o absoluto não existe e não faz parte da nossa existência. Talvez por isso possa dizer que te quero, sim.
Entendo. Há tanto que não me suportam...

Permaneceram em silêncio por alguns minutos.
Perdidos cada um em seu vazio quando ela por fim disparou no eco.

Gostaria de ser a síntese de tudo o que uma pessoa precisa para ser feliz. Não precisar abandoná-lo como abandonei aos outros, como abandonei àqueles que superaram a mim – embora eles, muitas vezes, não tenham superado a si próprios. E o que eu mais queria então era poder te fazer feliz.

João não respondeu. Por algum tempo não disse mais nada.
Ela entendia esse silêncio, essa viagem para dentro de si e respeitava esse momento. Sabia, mais do que ninguém, que ele gostava disso como gostava dela, de senti-la, de recebê-la nas horas mais impróprias e inesperadas, como sempre ocorria.
João tinha seus amores, suas mulheres, seus romances, mas só os vivia na plenitude porque sabia que ela voltaria. João, demonstrando ou não sua expectativa pela procura de si próprio, sabia que ela bateria em sua porta, apontando sua força e maestria e dando a ele a chance de saber que era feliz. Mesmo sozinho.

Não, ninguém é completo, ele enfim respondeu. Ninguém pode acreditar que encerra em si mesmo as virtudes e os sentimentos do mundo. Ninguém pode ser senão único, com suas falhas e faltas. Se eu não a conhecesse, talvez não soubesse disso, e talvez não pudesse ser feliz assim. A minha vida só fez sentido quando a conheci. Quando a senti por inteiro pude perceber que o homem que sou só se fez grande porque se sentiu, inúmeras e milhões de vezes, pequeno como o micróbio que ronda o ar que eu respiro. Quando a senti por inteiro dei por minha pequenez no mundo gigante que me rodeia, e confesso que não foi sempre bom. Você me mostrou o pior de mim e o maior dos meus medos.

Ela se calou como se cala o frio. Ninguém nunca a tinha encarado com tal coragem e tamanha sinceridade. Na maioria das vezes a temiam como a morte. E afinal, era só um encontro. Um encontro de uma alma.
Ela sabia que era disso que a vida é feita, que encontros e desencontros, procuras e buscas por sonhos são a essência de tudo na passagem da vida. Mas como falar sobre isso ou como explicar a brevidade de um sentimento a quem não o sente? Com cada um era uma nova aposta e uma esperança.
Mas dessa vez não foi assim. Embora ela, mais do que ninguém, soubesse que poderia sempre ser surpreendida, estava resignada em provar a desagradabilidade de sua presença. Queria desafiar a certeza e a clareza dos sentimentos alheios, daqueles que quando a convenciam, abandonavam-na.

Você não teme a mim. Isso me faz crer que me quer. No entanto, nas vezes passadas em que nos encontramos você relutou em ficar sozinho comigo. Hoje diz que me recebe de braços abertos e até que me esperava. Eu não imagino o que possa ter te mudado. Talvez uma ilusão, talvez uma frustração. O que me faz pensar que, ao invés de me temer, como antes, você teme a si mesmo.
Certa e errada. Eu não te quero agora mais do que te queria antes. Mas vejo muitas vezes como preciso de você. Ao mesmo tempo meu câncer e meu oásis. Uma dor e um afago. Estar com você me faz melhor porque me faz crescer. É o único momento verdadeiramente meu.
Um grande paradoxo.
Sim, um enorme paradoxo, complexo e confuso em si mesmo, dentro de mim. Sei que é inevitável que você faça parte de mim e da minha vida. E talvez por saber disso eu te aceite, e a cada dia, melhor. Porque vivo.
Não, você não vive. Você me espera. Vive com a certeza de que eu voltarei, de que cedo ou tarde eu baterei na porta do seu coração, e por isso você não vive. Você sobrevive pela certeza de que eu existo, e por mais que não me tema, teme a alegria dos momentos em que eu não estarei por perto.
Eu apenas não me engano, e prefiro não me iludir.
Então você não vive, mais uma vez. Se você não se engana, você não sonha. E se você não sonha porque não se ilude, então você não vive.

Era sempre assim. As conversas entre eles eram tensas e profundas e reveladoras.
E João não respondeu. Responder o que diante da revelação de sua própria alma?

Então ela recomeçou. Acho muito triste tudo isso. Alguns fogem de mim como se não pudessem nunca me sentir; outros mergulham em mim como se fosse este o único modo de sobreviver. Os primeiros temem a si mesmos, temem descobrir quem são e os seus desejos, temem descobrir o que querem a teme a busca incessante e infinita de um mundo que talvez nunca terão, e por isso temem a solidão. Os outros sabem muito bem quem são, e conhecem seus desejos, mas esperam a mim. Eles conhecem o medo, eles sabem da luta e viram a dor, por isso não buscam ir além, com a desculpa covarde de que eu possa chegar. Mas eu sou só a solidão.

segunda-feira, 29 de março de 2010

No Reino dos Céus

Ai, que inferno! Que inferno isso que não sabemos o que é, e a sensação de aqui não querer estar. Que inferno o vislumbre dos sonhos que dançam em nossas mentes durante o dia e durante a tarde, e às vezes, à noite. E mais este sentimento de não o estarmos vivendo. Para a merda com tudo.
Que tormento a falta do que não se tem e do que não é falta, porque nunca se teve. Que angústia, a força e a coragem que não veio. Inferno! Que inferno! Essa cabeça que não pára de pensar, e que não pára de sofrer, porque não pára de sonhar. E que dor desgraçada e tremenda por aquilo tudo que passou, por se querer que volte, por não saber ir.
Que inferno o esperar e o querer fazer. Mas que inferno maior ainda o não tentar.
Ai, essa podridão que nos cerca, que infinito mal-estar! E a anomalia e a dicotomia do que vivemos, do que não vemos. Que inferno esse pensar ser quem não se é, ou ser quem não se quer. Essas bênçãos, essas palavras, essas religiões, essas mentiras lavradas na alma, de perdição, que inferno!
Eu, Raquel

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A falta, do que se tem.


Será a falta do que não foi.
E será a omissão do sim talvez.
Será sempre a palavra que não foi dita,
Que ressoará o eco silencioso
E a ausência do que não tivemos.

Será o começo do fim.
E será então sempre assim.

O esquecimento prévio
Da memória que guarda
O sentimento que nem chegamos a ter.
E será o ato do que não chegou a acontecer.
Será o que se achou do perdido.

Será uma flor que não foi plantada,
O canto de um passarinho que não voou.
Será o ontem do hoje que não vivemos.

Será a vida.

Um verbo, um predicado, e o temor,
sobre a procura
Amar, amor, amado,
Do que não se deve ser procurado.
Porque será a busca
Inútil
Pelo que não se perde.

Será talvez um amanhã
Com a descoberta de que
Estava sempre ao lado.

Eu, L

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Quem me emprestou o que não tem

Um agiota roubou meu coração
Ele veio sorrateiro
Na minha alma se adentrou
E não teve compaixão.

Sem dó nem piedade
usurpou meus pensamentos
E numa brincadeira de dois corpos
na minha cabeça se instalou.

Falou sobre o amor
dos sentimentos
as dúvidas, as angústias, e a beleza
que não teve
Porque o canalha mentiu
Ou porque sumiu.

Foi um agiota,
Que veio e partiu
Transformou a minha vida
Num inferno da puta que pariu.

Eu, Luluzinha

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Espaço

Em que mundo será que se esconde
a criança moleca, o artista sem beca
de nossos primeiros tenros anos?



Por que terras será que se esvaem
A amizade marota, o caminho sem rota
Que conduzidos em segredo,
iam longe dos temores e dos medos?


E agora, então,
Para onde é que vão,
Longe das fronteiras das idades
Aquilo tudo que lhe prometeram,
Todos aqueles que agora se esqueceram?


Os sonhos ingênuos, a coragem e a saudade,
Nesta geografia do amanhã
Não puderam ser levadas.
Foram renunciadas,
numa luta de titãs.

Sem nem perguntar nem querer saber,
lhe disseram ser possível
caminhar sobre o intransponível.
Mas sem despedida ou perdão,
Correram para longe
dos sentimentos e da visão
Todos aqueles que antes
Haviam lhe dado as mãos.

Porém como todos
Que cruzaram seu destino,
Que foram amigos de alma
E os fantasmas do passado também,
um dia irão voltar.
Lembrarão aí,
que é preciso perdoar
pedirão talvez, por recompensas.
mas não mais se esquecerão
que na vida é preciso amar.

Mas quando este dia chegar
O que será que irão pensar
As pessoas por quem tinha carinho,
Quando decidir que vai seguir sozinho?
O que irão dizer
aqueles que nada te disseram
quando te deixaram e se perderem,
nas promessas e nas conquistas
Que se ergueram e se ruíram
Naquele extenso mundinho
Por todo o seu globo terrestre?

Porque a gente vai crescendo
A gente vai contente
Mas a gente cai de repente
No estupendo mundo dos homens.

E então,
se puder continuar
criança,
Poderá também sorrir
Poderá ousar
E saberá criar
A ponte entre o ontem, o hoje e o amanhã.
Entenderá que da perda
Pode vir a conquista,
E compreenderá por certo
a fala dos pássaros
das plantas
E dos mares.
E iria viver
em outro espaço.

Eu te veria partindo
mas talvez
Eu te encontraria sorrindo.

Eu, Raquel

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Onde ela está

Talvez fosse bom abstrair os problemas que vem de dentro para conseguir enxergar apenas a insanidade que está aí fora. Mas não consigo esquecer a alma, a dor e o amor. Não consigo deixar de pensar no que poderíamos estar fazendo de bonito não fosse tudo o que não fazemos. Não consigo, nem posso ser linear.
Tudo aquilo que não é complexo, que não é profundo sentimento. Tudo aquilo que está na margem do ser ou do estar não me atrai os olhos nem os pensamentos. E é por isso, simplesmente por isso, que sou feliz.
Engraçado falar em felicidade nestes tempos. Mas aí ela está! Ela está na lágrima do desespero, no escuro da desilusão, no rancor da perda, na flor morta, no delírio do amante. E nada disso é fácil.
Não faço a mínima idéia de porque somos diferentes, porque uns amam, outros choram, porque alguns andam e outros correm. Eu não sei. Eu só sei que amo. Apesar e além de tudo o que percorro e vejo. E é isso aí, e é bola pra frente, e é amar o errado, e é sentir o vazio. È precisar deste espaço, errar, e dar um passo. É também se contorcer pela a angústia, que vem desde o estômago, parar, senti-la e continuar. E eu juro, não cheguei a desejar que este fosse um trajeto linear.

Eu, Lu