sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O esquecimento prévio da dor que não sentiu

  O que? Então era só isso? Foi tudo o que conseguiu?
 

  Depois disso, nunca mais a viu.
 

  Há cinco anos Marcelo se corroía tentando entender porque perdeu o amor, porque não acompanhou o que sentia, porque não insistiu, porque se esquivou. Há cinco anos ele se perguntava por que não chorou. O que sentia agora era alheio até a ele mesmo.
 

  Passeava pela vida de mulher em mulher, de vazio em vazio, e não conseguia medir a ausência do tudo que não havia sentido. Em seu peito pesava agora a armadura do tempo que nos coloca parâmetros e medos, e nos enche de uma sensatez engessada por moralismos e valores que na maioria das vezes nem entendemos, no máximo aceitamos.
 

  A vida é engraçada. Naquela noite agradável de primavera, enquanto bebia entre amigos, e tentava mais uma vez se esquecer do mundano subúrbio do seu coração, soube do casamento e da gravidez interrompida. E da dor que sentia agora, só ele soube.
 

  Cinco anos de uma vida paralisada entre o ontem que não viveu e o amanhã que não chegava foi, na vida dela, tudo o que ele se recusou a lhe dar. Estranha aquela sensação. Perder o que se tem, sem saber que se tinha, sem saber que perdia, e sem saber que queria tanto. A perda significava muito para alguém que nunca perdeu nada em função do medo de perder.
 

  Marcelo bebia naquela confraria com os amigos há cinco anos, conversando sobre as mesmas besteiras há cinco anos; das conquistas que não fizeram, quem era o melhor; do sentido que a vida perdeu, quem ganhou mais; do amor que recusaram, quem mais se arrependeu. Cinco anos na mesma estúpida voracidade de viver. Enquanto ela tinha amado novamente - ou não, até porque não interessa mais... Agora ela já não ama ninguém, está morta e só deixou na terra um idiota que não foi capaz de confessar que a amava.
 

  É engraçado os caminhos que a vida nos apresenta, e as dúvidas e as angústias, e as escolhas que (não) fazemos. E a humanidade ainda tinha que inventar mais esta..., da necessidade de amar.

Eu, Luiza 

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De onde vem e para onde vamos

Da expectativa nasceu a dor,
a espera eterna pelo que não veio,
o sonho se sobrepondo à ação,
e o medo de uma saudade;


Da dor surgiu a experiência,
a passagem de uma fase da vida,
a lembrança do que se foi sem razão,
a conquista de uma nova vontade;


Da experiência, a decepção,
o momento daquilo que não voltou
o desejo de rasgar o espírito
o momento em que se movem montanhas;


Da decepção veio a verdade,
a proximidade com o fim,
o reencontro com uma sensação
e a certeza do recomeço.
Eu, L

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Descaminhando

Caminho lentamente,
a planta dos pés apalpando o chão disforme e poroso. Tateio cuidadosamente corpos duros, algumas pedras pequeninas e pontiagudas que incomodam a pele, como se estivessem rasgando o próprio coração.
Direciono o corpo vagamente na escuridão, vou adiante. Como se os olhos estivem cerrados; fecho-os afim de me sentir mais segura, pois a aflição de não conseguir ver quando se tenta desesperadamente enxergar é grande por demais. E vem a vontade de chorar.
Tremenda vontade de colocar tudo para fora, não em palavras, nem em berros, em lágrimas. Lágrimas que sairiam tão naturalmente como pensarmos no destino que não controlamos. Lágrimas doces de frustração, sim. De decepção também, e de dor. Lágrimas doces de vida.


Todos os sentidos se afloram.
E o fervor angustiante de se querer viver, e viver e viver.
O que acontece no
instante
em que o agora passa, se torna imensamente pequenino. Porque o agora vem fazendo mais e mais, parte apenas do passado. De um passado longínquo e seguro, que não existe mais....
Incompreendido por mim e para o sempre, porque a certeza do absoluto humano não existe. Porque o ser certo é o des-humano.
Eu, Raquel

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando não se espera

Ele não esperava. E foi como um golpe, um tombo do cimeiro de todos os sentimentos.
Mas que bom não esperarmos a dor enquanto perdura o amor. E se depois machuca, não machuca mais do que a decisão de não o vivermos. Foi isso o que não se aprendeu... E sonhos conjuntos deitaram ao chão como se nunca mais pudessem ser (re)construídos, como se o futuro não fosse o amanhã imprevisível e a cura de todo coração partido.
Mas de nada adiantaria mesmo falar, ao sofredor, sobre o amadurecimento, sobre o homem se descobrindo humano, e sobre o humano se descobrindo mortal; porque de nada adianta a desculpa para quem só procurou por ser amado, e viu a dor se tornar seu companheiro.
Sentimento podre foi o que ficou, e a sensação de uma perda incomensurável sobre alguém que se tornou insubstituível. Uma perda terrena e mundana, uma perda fétida sobre a angústia que parece rasgar o que já está vazio.
Mas só o que queria que lembrasse, é para onde caminha o sentimento perdido. Ele não vai para o vácuo, ele não se perde na alma. Ele fica guardado.
Ele está apenas a espreita do próximo passo, do reencontro, de você ou de um outro alguém, quando poderá fazer com que perceba que na vida só perde, quem ganha.