segunda-feira, 24 de maio de 2010

Passagem

A noite seguia quente e abafada quando adentrou o 7º andar da Rua Morena Pereira. Estava para entrar uma daquelas tempestades de verão, passageiras como tudo na vida...
Encontrou-o sozinho. Com a calma e a serenidade características daqueles que sabem que um dia ela chegaria. Na verdade, aguardando-a.

Esperava-a já há algum tempo, ele disse. Achei que não viesse mais.
Você sabe que venho. Que cedo ou tarde, no fim sempre volto.
Eu sei...
Fica triste com isso?
De modo algum. Recebo-a com a mesma verdade e satisfação com que já recebi muitos outros em minha vida. Com o coração aberto para saber curti-la, aprender com você, e viver com você. Seja por um dia ou, se tiver que ser, por uma vida.
É bom ouvir isso. Sobretudo vindo de você. Não imaginava que iria ser tão bem recebida. Na verdade acho que eu pensava que não iria ser nem querida.
Se enganou. Não entendi de todo o “sobretudo”... De qualquer modo, seja como foi que vivi minha vida até agora, gostaria que soubesse que nunca a evitei. Em todas as vezes que você passou pela minha vida tive o prazer imenso de compartilhar com você momentos maravilhosos. Mas não a conheço por completo. Você passou por mim e confesso, não a via. Mas sei agora que há mais de um modo de encarar a vida, mais de uma maneira de viver, mais de uma verdade. Sei que o absoluto não existe e não faz parte da nossa existência. Talvez por isso possa dizer que te quero, sim.
Entendo. Há tanto que não me suportam...

Permaneceram em silêncio por alguns minutos.
Perdidos cada um em seu vazio quando ela por fim disparou no eco.

Gostaria de ser a síntese de tudo o que uma pessoa precisa para ser feliz. Não precisar abandoná-lo como abandonei aos outros, como abandonei àqueles que superaram a mim – embora eles, muitas vezes, não tenham superado a si próprios. E o que eu mais queria então era poder te fazer feliz.

João não respondeu. Por algum tempo não disse mais nada.
Ela entendia esse silêncio, essa viagem para dentro de si e respeitava esse momento. Sabia, mais do que ninguém, que ele gostava disso como gostava dela, de senti-la, de recebê-la nas horas mais impróprias e inesperadas, como sempre ocorria.
João tinha seus amores, suas mulheres, seus romances, mas só os vivia na plenitude porque sabia que ela voltaria. João, demonstrando ou não sua expectativa pela procura de si próprio, sabia que ela bateria em sua porta, apontando sua força e maestria e dando a ele a chance de saber que era feliz. Mesmo sozinho.

Não, ninguém é completo, ele enfim respondeu. Ninguém pode acreditar que encerra em si mesmo as virtudes e os sentimentos do mundo. Ninguém pode ser senão único, com suas falhas e faltas. Se eu não a conhecesse, talvez não soubesse disso, e talvez não pudesse ser feliz assim. A minha vida só fez sentido quando a conheci. Quando a senti por inteiro pude perceber que o homem que sou só se fez grande porque se sentiu, inúmeras e milhões de vezes, pequeno como o micróbio que ronda o ar que eu respiro. Quando a senti por inteiro dei por minha pequenez no mundo gigante que me rodeia, e confesso que não foi sempre bom. Você me mostrou o pior de mim e o maior dos meus medos.

Ela se calou como se cala o frio. Ninguém nunca a tinha encarado com tal coragem e tamanha sinceridade. Na maioria das vezes a temiam como a morte. E afinal, era só um encontro. Um encontro de uma alma.
Ela sabia que era disso que a vida é feita, que encontros e desencontros, procuras e buscas por sonhos são a essência de tudo na passagem da vida. Mas como falar sobre isso ou como explicar a brevidade de um sentimento a quem não o sente? Com cada um era uma nova aposta e uma esperança.
Mas dessa vez não foi assim. Embora ela, mais do que ninguém, soubesse que poderia sempre ser surpreendida, estava resignada em provar a desagradabilidade de sua presença. Queria desafiar a certeza e a clareza dos sentimentos alheios, daqueles que quando a convenciam, abandonavam-na.

Você não teme a mim. Isso me faz crer que me quer. No entanto, nas vezes passadas em que nos encontramos você relutou em ficar sozinho comigo. Hoje diz que me recebe de braços abertos e até que me esperava. Eu não imagino o que possa ter te mudado. Talvez uma ilusão, talvez uma frustração. O que me faz pensar que, ao invés de me temer, como antes, você teme a si mesmo.
Certa e errada. Eu não te quero agora mais do que te queria antes. Mas vejo muitas vezes como preciso de você. Ao mesmo tempo meu câncer e meu oásis. Uma dor e um afago. Estar com você me faz melhor porque me faz crescer. É o único momento verdadeiramente meu.
Um grande paradoxo.
Sim, um enorme paradoxo, complexo e confuso em si mesmo, dentro de mim. Sei que é inevitável que você faça parte de mim e da minha vida. E talvez por saber disso eu te aceite, e a cada dia, melhor. Porque vivo.
Não, você não vive. Você me espera. Vive com a certeza de que eu voltarei, de que cedo ou tarde eu baterei na porta do seu coração, e por isso você não vive. Você sobrevive pela certeza de que eu existo, e por mais que não me tema, teme a alegria dos momentos em que eu não estarei por perto.
Eu apenas não me engano, e prefiro não me iludir.
Então você não vive, mais uma vez. Se você não se engana, você não sonha. E se você não sonha porque não se ilude, então você não vive.

Era sempre assim. As conversas entre eles eram tensas e profundas e reveladoras.
E João não respondeu. Responder o que diante da revelação de sua própria alma?

Então ela recomeçou. Acho muito triste tudo isso. Alguns fogem de mim como se não pudessem nunca me sentir; outros mergulham em mim como se fosse este o único modo de sobreviver. Os primeiros temem a si mesmos, temem descobrir quem são e os seus desejos, temem descobrir o que querem a teme a busca incessante e infinita de um mundo que talvez nunca terão, e por isso temem a solidão. Os outros sabem muito bem quem são, e conhecem seus desejos, mas esperam a mim. Eles conhecem o medo, eles sabem da luta e viram a dor, por isso não buscam ir além, com a desculpa covarde de que eu possa chegar. Mas eu sou só a solidão.